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Publicado 22/08/2014 - 15:23

Estudo mostra que muitas famílias pretendem abandonar o cultivo do tabaco

Deser

Todos os dias cerca de 180 mil famílias trabalham nas lavouras de tabaco em mais de 800 municípios brasileiros. Estes agricultores foram responsáveis pelo cultivo de 710 mil toneladas de fumo em 2013. O trabalho destes fumicultores transformou o Brasil no principal exportador mundial da folha e o segundo entre os países produtores, atrás apenas da Índia. Porém, o setor tem sofrido transformações ao longo dos últimos anos. Parte das mudanças surgiu depois de a Organização Mundial da Saúde (OMS), por considerar que o tabagismo é uma doença pediátrica e que comprovadamente causa males a saúde, colocou o assunto em pauta internacional com o Tratado intitulando no Brasil, como Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco. Desde 2005 nosso país é signatário da Convenção e ações voltadas para o setor produtivo da folha foram implantadas pelo governo brasileiro. Entre elas destaca-se a promoção de alternativas economicamente viáveis para os agricultores produtores de tabaco, com o fornecimento de Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater), além de iniciativas para a proteção da saúde das pessoas e do meio ambiente e a restrição ao apoio e aos subsídios relativos à produção do tabaco.

Para entender como estas mudanças afetaram as famílias que produzem tabaco, além de ver de perto qual é a realidade dos fumicultores brasileiros, a engenheira agrônoma, Cleimary Zotti, do Departamento de Estudos Sócio – Econômicos Rurais (Deser) com o apoio da Tabacco Free Kids Action Fund (TFKAF) acompanhou a rotina de cinco famílias que cultivam este produto no estado do Paraná durante a safra 2013/2014. O estudo intitulado “O dia a dia da lida com o fumo” foi divulgado no início de agosto e trouxe um retrato das dificuldades e esperanças que norteiam o trabalho nas lavouras de tabaco.

 Dependência do tabaco

O estudo revelou que todas as famílias, pelos mesmos motivos, pretendem abandonar o cultivo do tabaco. “Todas gostariam de deixar de cultivar o tabaco, se tivessem alguma alternativa econômica que permitisse a eles permanecer no meio rural”, destaca Cleimary.

Todas as famílias ressaltaram que a margem de lucro líquido é um dos fatores determinantes para o desejo de abandonar a plantação de fumo. As propriedades são pequenas e, em muitas delas, há a necessidade de arrendar terra para o cultivo de tabaco. Na safra 2013/2014 a sobra ou receita líquida do tabaco por membro de cada família variou entre R$ 814, menor renda entre as famílias que participaram do estudo e R$ 1, 508 para cada pessoa entre os de maior renda. “A família que registrou maior renda tem mão de obra acima da média, são oito pessoas trabalhando na lavoura. Além disso, a área plantada também é maior do que as demais propriedades, isso explica uma rentabilidade maior. Mas, na maioria das unidades produtoras de tabaco, a renda é muita baixa e a margem de lucro só tem diminuído com o passar dos anos”, revela Cleimary. Segundo ela, uma pesquisa realizada pelo Deser na safra 2011/2012 revelou que 24,5% das mais de oito mil famílias entrevistadas tiveram renda bruta inferior a R$ 8 mil.

A agrônoma alerta que se deve considerar também que essa receita líquida obtida, considera apenas o balanço entre as receitas e despesas inerentes à produção do tabaco. No cálculo não entram despesas como impostos da terra, contribuição sindical, depreciação e manutenção de nenhuma construção ou equipamento que não esteja diretamente atrelada à produção do tabaco. Nessa lógica, o custo de vida, muitas vezes é maior do que a receita líquida obtida com o tabaco.

Trabalho pesado

O estudo revelou também que a jornada de trabalho dos produtores de tabaco é bem maior do que a dos agricultores que trabalham com outras culturas. “O fumo exige muita mão de obra, todas as famílias, inclusive a que possui uma quantidade de mão de obra familiar bem acima da média, contratam trabalhadores externos à unidade de produção. Além disso, diferente de outras culturas, praticamente todo o trabalho realizado é braçal, ou com ajuda de equipamentos de tração animal, o que torna o trabalho mais oneroso, penoso e doloroso, principalmente para as pessoas que sofrem de problemas de coluna”, destaca a autora do estudo.

Se não bastasse, o tempo de trabalho na época da secagem é grande, algumas famílias chegam a trabalhar 16 horas por dia, secando, classificando e colhendo fumo. A colheita é feita ao sol, com uma pequena pausa para o almoço, deixando os agricultores expostos aos raios ultravioleta que podem causar doenças de pele.

Cleimary Zotti esclarece que a secagem dura de três a quatro dias, ou mais, durante 24 horas por dia. Segundo a engenheira agrônoma, algumas estufas mais modernas lançam um aviso sonoro para que alguém da família vá até lá (mesmo na madrugada) para colocar lenha e manter a temperatura. Mas as estufas mais antigas, que é o tipo mais usado pela maioria dos agricultores, exigem que alguém durma ao lado da fornalha para, de hora em hora, colocar fogo e não deixar a temperatura baixar.

Busca por outras culturas

Segundo a autora do estudo o descontentamento pelo cultivo do tabaco é algo intrínseco na maioria das famílias que o cultivam, especialmente as que mais dependem dela para sobreviver e se manter no meio rural. “Mas por ser uma cadeia com assistência técnica, crédito e comercialização garantidos, que vem há quase cem anos formatando o modo de vida de muitos agricultores, mesmo sem a garantia de preço, tornou-se uma alternativa de manutenção de muitas famílias no meio rural. Porém, formatado num processo de total dependência, tanto do agricultor para com a empresa, quando do tabagista, para com o tabaco”, diz.

Cleimary explica ainda que essa realidade começa a mudar a partir do momento em que um novo modelo de assistência técnica e extensão rural, alavancado pelo governo brasileiro passa a fazer parte da vida das famílias agricultoras produtoras de tabaco. Um modelo ainda muito pequeno em termos de abrangência, mas que pode servir para alavancar muitas experiências de diversificação do fumo, e servir de exemplo para muitos agricultores que hoje cultivam tabaco, estão descontentes e querem deixar de cultivá-lo, ou pelo menos depender menos dessa cultura, mas não sabem como fazer.

Da mesma foram, sem dúvida, muitas famílias hoje são felizes com a produção do tabaco, e não pretendem deixar de produzi-lo. Mas isso não é problema, pois enquanto houver consumidores de tabaco, haverá necessidade de ter quem o planta. Mas a questão maior e central, é que muitas vezes produz-se tabaco por falta de alternativas de renda que permitam às famílias deixar de produzi-lo. E para buscar por essas alternativas que devem ser focados esforços.

Para a agrônoma outro grande desafio, é como identificar, de forma rápida, os processos de exclusão pela própria indústria de famílias que cultivam tabaco, e promover ações de potencialização de alternativas, particularmente para as famílias mais pobres, que mais dependem da renda do fumo e que fazem parte de um grupo de risco de exclusão por produzirem pequenas quantidades da folha anualmente.

 

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